Grupo Lobo - na meta da conservação do lobo!


O Grupo Lobo, ONGA sem fins lucrativos, foi fundada em 1985 para trabalhar a favor da conservação do lobo e do seu habitat em Portugal.



Historial do grupo lobo

Devido à sua situação populacional, o lobo é uma das espécies que, a nível mundial, tem motivado maiores esforços com a finalidade de evitar a sua extinção. Assim, se não actuarmos de uma forma concreta e positiva, perderemos mais uma espécie animal, empobrecendo o nosso património natural.



A existência do Grupo Lobo resulta da necessidade de divulgar novos factos sobre o lobo, predador que nos habituaram a ver como demoníaco e que existe apenas para castigo do Homem. Hoje em dia estes conceitos estão completamente desactualizados mas, infelizmente, os novos conhecimentos sobre este animal estão pouco divulgados junto da opinião pública.

Um dos fundadores da associação, o Doutor Francisco Petrucci-Fonseca (Centro de Biologia Ambiental / Departamento de Biologia Animal da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa), ocupa actualmente a presidência e é o responsável pelas acções de investigação e de divulgação, a nível nacional, desenvolvidas pelo Grupo Lobo.

O Grupo Lobo tem a sua sede social nas instalações do Departamento de Biologia Animal da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

São orgãos nacionais sociais do Grupo Lobo a Assembleia Geral, a Direcção Nacional, um Conselho Fiscal, uma Comissão Jurisdicional e um Conselho Técnico. Cada um destes órgãos tem constituição e objectivos próprios conforme expresso nos estatutos.

O GL conta já com cerca de 1.400 associados. Está filiado no Eurogroup for Animal Welfare (Bruxelas) e na World Society for the Protection of Animal Welfare (Londres) e o seu Presidente é membro do Wolf Specialists Group da International Union for Nature Conservation (IUNC).

A associação troca informação com outros investigadores de reconhecido mérito nesta área e com organizações de diversos países.

Uma associação como o Grupo Lobo, não consegue por si só alcançar os seus objectivos, sem recorrer a pedidos de apoio monetários ou outros. Assim, ao longo dos últimos anos, várias têm sido as entidades, privadas ou estatais, a que o Grupo Lobo tem recorrido.

Cientes da impossibilidade de realizar sozinhos muitas das tarefas necessárias à conservação deste canídeo, não só por limitações da organização, mas também económicas, o Grupo Lobo tem procurado promover parcerias para a candidatura a programas que permitam a realização de projectos, quer científicos quer de educação ambiental.

A colaboração institucional e a cooperação a nível individual com vários investigadores e técnicos, tem sido também muito frequente e com resultados muito positivos.

objectivos do grupo lobo

Tendo em atenção o perigo de extinção que pesa sobre o lobo, o Grupo Lobo delineou uma estratégia de conservação do lobo ibérico em Portugal, a qual designou por Projecto Signatus1 e que tem procurado pôr em prática desde a sua fundação. São objectivos do Projecto Signatus:

Informação da Opinião Pública - Divulgação de informação correcta sobre este predador mal compreendido e perseguido;

Apoio a Actividades Científicas - Promoção e desenvolvimento de estudos científicos de índole biológica e sociológica, que contribuam para uma melhor compreensão do lobo e das suas relações com o Homem;

Promoção de Medidas Práticas de Conservação - Contribuição para uma verdadeira política de conservação, visando não apenas a conservação desta espécie ameaçada de extinção em Portugal, mas também do Património Natural em geral.

I. INFORMAÇÃO DA OPINIÃO PÚBLICA
Uma das causas últimas de extinção de espécies animais é a perseguição que lhes é movida pelo Homem, pois considera-as como nocivas e inúteis ou, muito simplesmente, por serem consideradas como representando algo de maligno ou diabólico.

Poucos animais inspiram simultaneamente tanto receio e tanto respeito como o lobo. Mas o que se sabe realmente sobre este animal e do modo como o Homem o vê?

A sobrevivência do lobo depende do balanço entre os factores negativos e os positivos que afectam a sua população. Os factores negativos incluem a hostilidade tradicional da opinião pública. Portanto, parece óbvio que uma estratégia consequente de conservação do lobo ibérico em Portugal assente fundamentalmente na informação, sensibilização e motivação da população.

Nesta linha de acção, o GL desenvolveu uma série de acções, entre os quais se destacam:
  • O projecto “ Os Lobos descem às escolas” é uma iniciativa que visa sensibilizar crianças em idade escolar, através de palestras direccionadas por forma a cativar o seu interesse pelo lobo;

  • A realização de conferências, sempre que solicitadas;

  • O Boletim Informativo da associação, destinado aos sócios do GL, aos visitantes e pais adoptivos dos lobos do CRLI, a Associações de Defesa do Ambiente, a outras instituições internacionais afins, a estabelecimentos de ensino e de investigação, entre outros;

  • A publicação de diverso material didáctico, como sejam, por exemplo, folhetos, cadernos de actividades e cartazes alusivos ao lobo;

  • A constituição de uma colecção de vídeos, CD’s, fotografias e slides,;

  • A cooperação com os meios de comunicação social nacionais e internacionais;

  • A montagem de uma exposição itinerante;

  • A participação em feiras e em exposições em que o tema é o ambiente;
II. APOIO A ACTIVIDADES CIENTÍFICAS

Da referida estratégia de conservação faz também parte o apoio a estudos científicos.

O GL tem uma importante vertente de formação, da qual se salienta o apoio a estágios de licenciaturas leccionadas no Departamento de Biologia Animal da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (D.B.A., F.C.U.L.). Também alunos de escolas profissionais e de outras universidades nacionais e estrangeiras, têm realizado o estágio profissionalizante com o apoio do GL.

A associação tem igualmente colaborado nas actividades de investigação realizadas em algumas áreas protegidas.

O GL participou ou participa com outras instituições, estatais ou não, em projectos científicos, nomeadamente:
  • na Monitorização da População Lupina portuguesa;

  • no Estudo da População Lupina a Sul do Rio Douro;

  • no Fomento e Recuperação da Utilização de Raças Autóctones de Cães de Gado;

  • na Análise das Atitudes Públicas para com o Lobo;
Os resultados obtidos até ao momento nestes estudos foram apresentados em Reuniões/Congressos nacionais e internacionais, em relatórios técnicos, e também publicados em revistas de carácter científico e de divulgação.

III. PROMOÇÃO DE MEDIDAS PRÁTICAS DE CONSERVAÇÃO

O GL colaborou na elaboração do Decreto-Lei 90/89 o qual confere total protecção ao lobo em Portugal.

Uma das principais medidas práticas levadas a cabo no âmbito do Projecto Signatus, é a adaptação de sistemas tradicionais de protecção dos rebanhos, nomeadamente a recuperação dos cães guardadores de gado. Com esta medida pretende-se contribuir para a recuperação das raças nacionais de cães de gado e para a sua utilização como forma de minimizar os prejuízos provocados pelo lobo sobre os animais domésticos, contribuindo para a redução dos conflitos Homem-Lobo (uma das principais causas de declínio da população lupina).

o centro de recuperação do lobo ibérico



Outra das iniciativas do Grupo Lobo que tem sido levada a cabo de acordo com os recursos existentes, foi a criação e desenvolvimento do Centro de Recuperação do lobo Ibérico2 (CRLI).

O CRLI foi criado em 1987 com o objectivo de providenciar um ambiente, em cativeiro, adequado para lobos que não possam viver em liberdade.

O CRLI ocupa 17 hectares de terreno, num arborizado e isolado vale.

Os lobos no CRLI vivem em cercados com dimensões em função do tamanho da alcateia que neles vive, com topografia heterogénea e uma boa cobertura vegetal com bons abrigos. Actualmente, existem sete cercados no Centro, que ocupam uma área total de 4,50 hectares.

Os lobos podem ser observados em condições únicas das torres de observação,. Situadas em pontos estratégicos, permitem uma boa vista de diferentes cercados.

Ao mesmo tempo que o CRLI providencia os melhores cuidados aos lobos, proporciona a realização de estudos, sobretudo na área do comportamento social que, associados à investigação realizada na Natureza pelo Grupo Lobo, servem de base para a campanha de divulgação, que procura informar o público sobre a verdadeira natureza do lobo.

O CRLI recebe anualmente cerca de 6.000 visitantes, principalmente alunos provenientes de escolas e outras instituições privadas e estatais.

Uma das fontes de apoio do CRLI é o Programa de Adopções. Este programa tem como objectivo a obtenção de fundos necessários ao funcionamento do Centro. A contribuição mínima anual é de €35 por lobo. Fazendo uma doação de €350 pode tornar-se “Pai Adoptivo Vitalício”. Os pais adoptivos recebem um certificado de adopção, a fotografia do lobo que adoptaram e o Boletim Informativo do Grupo Lobo “Um uivo pela sobrevivência”.

O CRLI possui um programa de voluntariado acessível às pessoas maiores de 18 anos e interessadas na conservação da vida selvagem. Este programa permite a participação nas actividades diárias, incluindo a alimentação dos animais e a manutenção de toda a área do Centro.

As condições para integrar este programa estão disponíveis junto do responsável do CRLI.

o lobo ibérico

A subespécie de lobo que habita a Península Ibérica designa-se cientificamente por Canis lupus signatus e foi descrita por Angel Cabrera em 1907. Outrora distribuindo-se por toda a península, actualmente encontra-se circunscrita às regiões do Centro-Norte e Norte.



Estima-se que na Península Ibérica, sobrevivam cerca de 2000 lobos, dos quais 300 em território português. Durante o século XIX os lobos eram numerosos em Portugal, ocupando todo o território nacional. Contudo, já em 1910 era notório o seu declínio e apesar do seu actual estatuto de conservação, os estudos até agora realizados sugerem que a população lupina em Portugal continua em declínio, encontrando-se actualmente confinada à região fronteiriça dos distritos de Viana do Castelo e Braga, à província de Trás-os-Montes e parte dos distritos de Aveiro, Viseu, Guarda e Castelo Branco. As causas do declínio do lobo são a sua perseguição directa e o extermínio das suas presas selvagens - veado e corço. O declínio é actualmente agravado pela fragmentação e destruição do habitat e pelo aumento do número de cães assilvestrados.

A perseguição directa movida por pastores e caçadores - caça furtiva com armas de fogo, remoção das crias das tocas, armadilhagem e envenenamento - deve-se à crença generalizada que o lobo ataca o homem e os animais domésticos. A escassez de presas naturais, provocada pela excessiva pressão cinegética sobre os cervídeos e pela destruição do habitat, leva a que os lobos, por vezes, ataquem os animais domésticos. No entanto, em áreas onde as presas naturais abundam, os prejuízos provocados pelo lobo no gado são quase inexistentes. Ao mesmo tempo, pensa-se que presentemente existam centenas de cães abandonados a vaguear pelo país, os quais competem com o lobo na procura de alimento, sendo provavelmente responsáveis por muitos dos ataques a animais domésticos incorrectamente atribuídos ao lobo. Em relação ao ataque a humanos, existe apenas uma informação comprovada que se refere a um animal com raiva, doença que, felizmente, já há muitos anos se encontra irradicada de Portugal.

O lobo só sobreviverá se lhe proporcionarmos refúgios adequados e alimentação natural (corço, veado, e javali), e aceitarmos que cause algumas baixas nos rebanhos, sendo os pastores pagos com indemnizações, sempre que o ataque seja comprovadamente atribuído ao lobo. A reintrodução de cervídeos - veado e corço - é fundamental para a sobrevivência dos nossos últimos Lobos Ibéricos.

Urge pois a elaboração de uma estratégia que obste ao desaparecimento do último grande predador em Portugal e que vise a manutenção da sua viabilidade populacional, para o que são necessários conhecimentos profundos da ecologia e biologia deste carnívoro. Infelizmente, os conhecimentos actuais sobre o Lobo Ibérico são ainda insuficientes para o estabelecimento da desejada estratégia.



O lobo é considerado uma espécie animal com o estatuto de vulnerável segundo a "1990 IUCN Red List of Threatened Animals" da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e a "Lista Roja de los Vertebrados de España, 1986" do Instituto de Conservação da Natureza Espanhol (ICONA) e com o de espécie em perigo de extinção de acordo com o “Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal” (SNPRCN, 1990); consta ainda do Anexo II da Convenção relativa à Conservação da Vida Selvagem e dos Habitats Naturais da Europa (Convenção de Berna, 1979), do Anexo II da Convenção que regulamenta o Comércio de Espécies Selvagens (CITES) e do Anexo 2 do Regulamento 3626/82/CEE (SNPRCN, 1990). No nosso território, o lobo é totalmente protegido desde 1989 pelo Decreto-Lei 90/89.

1 Projecto Signatus : Menção Honrosa “Spirit of Enterprise – the 1987 Rolex Awards”

2 Centro de Recuperação do Lobo Ibérico - 1º lugar (ex-aequo) na edição 2001 Prémios Ford Motor Company para a Conservação da Natureza: “Grande Prémio Nacional” e categoria “Meio Ambiente Natural”


Autora do artigo e Fotos
: Rita Carreira (Responsável pela Educação Ambiental do Grupo Lobo)

Data: 13/11/2006

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