Uivos de Mudança - O Lobo Ibérico e o Cão de Gado


"One does not meet oneself, until one catches the reflection in an eye other than human.", Loren Eiseley



Habituei-me, desde cedo, a ouvir histórias de lobos. Lobos maus, para ser mais exacto. Junto à lareira, na cozinha velha, imaginava toda a espécie de aventuras: noites passadas em cima de uma árvore, perseguições incansáveis no meio da floresta, enfim, um rol de histórias sem sentido que preenchiam o meu imaginário, ou, melhor, talvez, com algum sentido. Afinal, do alto dos meus seis anos, podia jurar-vos ouvir os lobos toda a noite, em redor da casa.

Apesar de fundado em 1987, com o apoio da Fundação Bernd Thies, foi só em 1995, com a finalidade de fazer uma reportagem para um jornal regional, que me desloquei ao Centro de Recuperação do Lobo Ibérico (CRLI), na Malveira. Pela primeira vez, senti o olhar confiante de um macho alfa: parado, cauda erecta e orelhas despertas, mostrava-me o seu estatuto de dominante. Era o Sândalo. Ainda hoje o recordo.

Hoje, o CRLI existe no mesmo local e sofreu algumas mudanças. Conta com um centro de recepção a visitantes e desenvolve um programa de "adopção" de lobos e garante, ainda, a possibilidade de, em regime de voluntariado, se colaborar nas tarefas diárias da sua manutenção. Interessante para estudantes, estagiários ou mesmo para quem queira aumentar os seus conhecimentos, na área do comportamento animal.



Numa área total de 17 hectares, de relevo e vegetação muito variados, existem actualmente sete cercados que cobrem 4.5 hectares. Os lobos dispõem de condições excelentes e é em Portugal o melhor sítio para os observar. O lobo da Península Ibérica (Canis lupus signatus, Cabrera, 1907) é uma subespécie do lobo cinzento (Canis lupus) que, a julgar pelo último senso realizado, sofreu um decréscimo muito elevado, principalmente a partir dos anos 70, não devendo o seu efectivo populacional, em estado selvagem, ultrapassar, no nosso país, os 300 indivíduos, distribuídos pelo Norte e Centro. No Sul, está dado como extinto.

O Lobo Ibérico é um animal de grande porte. Robusto, um macho adulto tem um peso entre 35 e 45Kg e mede de comprimento entre 135 a 140cm. As fêmeas são um pouco mais pequenas. Orelhas triangulares, pelagem de cor variada que vai do cinza (esta mais rara) ao castanho avermelhado escuro, têm olhos oblíquos de cor âmbar ou topázio. Predador de topo, está totalmente protegido desde 1988.

Inserido no Projecto Signatus, de 1987, realizado pelo Grupo Lobo e tendo como objectivo a conservação do Lobo Ibérico, foi introduzido, em 1996, um plano de acção para a recuperação do Cão de Gado. A sua parca utilização, tradicionalmente como auxiliar no pastoreio e protecção dos animais domésticos, tem vindo a contribuir para o decréscimo das principais raças portuguesas de cães de gado, como o Cão da Serra da Estrela, o Cão de Castro Laboreiro e o Rafeiro do Alentejo.



Assim, este projecto, como referido pelo professor Francisco Petrucci-Fonseca, funciona em 3 vertentes diferentes:
  • Uma correcta aplicação de diferentes métodos na protecção de rebanhos, como a utilização dos cães de gado, instrumento importante na redução dos ataques de predadores;
  • A recuperação das raças nacionais de cães de gado;
  • O melhorar da relação homem/lobo e, consequentemente, a sobrevivência do predador.
Estudos do Grupo Lobo, que apontavam para uma certa descrença inicial por parte dos pastores, têm vindo a revelar-se mais positivos. O minimizar de prejuízos é importante e leva, aos poucos, a uma nova forma de encarar o lobo. Presentemente, o cão é mesmo o melhor amigo de alguns animais... também.



A escassez de presas naturais, perseguição e caça por parte do homem e a destruição dos habitats são as principais causas do reduzido número de predadores de grande porte. Estou absolutamente convencido de que os papéis relativos ao homem e ao lobo andaram quase sempre invertidos, ficando, inevitavelmente, o lobo com o que deveria ser propriedade do homem e, orgulhosamente, o homem no papel de lobo.

O esforço de cada um de nós é imprescindível na preservação das espécies e na não degradação dos espaços naturais. O equilíbrio dos ecossistemas, e, principalmente, o respeitar de algumas fronteiras, são valores que nos devemos, responsavelmente, impor. A aplicação de medidas preventivas pode contribuir para esse equilíbrio. O benefício será, com certeza, de todos. Não posso imaginar que, um dia, todos os meninos de seis anos se fiquem, irremediavelmente, pelas histórias junto à lareira.




Autor do artigo e Fotos
:Artur Vaz de Oliveira
Data: 25/09/2006

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