Artigo da Semana



Ruído e o Ambiente

O ruído pode ser definido como um som indesejável, que constitui uma causa de incómodo, um obstáculo à concentração e à comunicação.

A capacidade auditiva humana apresenta valores diversos, mas em média pode-se afirmar que o ouvido capta sons desde 20Hz até aos 20 KHz, existindo uma gama de valores onde a sensibilidade auditiva é mais evidente : 500Hz e 6000Hz.

Segundo o II inquérito Nacional ‘Os Portugueses e o Ambiente’ realizado a 2000 inquiridos, os principais descritores com tendências a agravamento nos próximos 10/15 anos são: trânsito (78%), qualidade do ar(70%) e ruído(66%). Neste âmbito, o ruído torna-se uma variável ambiental que requer toda a atenção, dada a sua importância nos mais diversos aspectos, nomeadamente associados à saúde humana e bem estar.

O ruído resulta da alteração da pressão acústica, pelo que é possível a sua medição através de sonómetros que calculam o nível médio para um determinado intervalo de tempo. O nível sonoro contínuo equivalente (Leq) , é o indicador básico de ruído. A unidade de medida é o decibel (dB(A)), que se define como a razão logarítmica entre a pressão sonora verificada e o valor de referência. A escala de valores de nível de pressão sonora varia entre 0 dB(A) (limiar da audição) e 130 dB(A) (limiar da dor).



[Fonte :Instituto do Ambiente]



Note-se que não existe uma linearidade na aritmética do decibel, uma variação de 3 dB(A), corresponde a uma duplicação da fonte sonora. Pelo que pequenas variações podem tornar-se consideráveis.

Deste modo, é possível efectuar medições de ruído em diversos locais a fim de obter valores que nos permitam avaliar o nível de incomodidade, com fim de adoptar medidas para minimizar riscos potenciais.

A nível global, o ruído encontra-se presente em diversas formas, sendo as principais:
  • Trafego (sobretudo estradas movimentadas, aeroportos, comboios);
  • Industria (laboração de fábricas, actividades comerciais e serviços(ar condicionados, câmaras frigorificas, actividades de carga/descarga)
  • Actividades ruidosas (feiras, festas, discotecas, estaleiros)
  • Ruído provocado pelas pessoas e animais em zonas residenciais (bater portas, chorar de bebés, ladrar de cães, musica)
  • Causas naturais (trovoadas, vento)
Um estudo realizado pela Direcção Geral do Ambiente, datado de 1989, a 600 pessoas, mostrou que o trafego rodoviário era a principal fonte de ruído com maior índice de incomodidade(69.5%).

Os efeitos associados ao ruído variam consoante o tipo de ruído e a sensibilidade auditiva de cada um. A intensidade de ruído, a composição e duração, condicionam as perturbações que este pode causar. A idade, também agrava a diminuição da capacidade auditiva, que se torna ainda mais intensa quanto mais elevado for o nível de ruído a que um indivíduo se encontra exposto durante o seu período de trabalho.

No entanto, torna-se difícil estabelecer relações precisas entre ruído e incomodidade, dado que ruído é uma sensação preceptiva. A sensibilidade humana não é uma variável constante, representa uma diversidade de reacções adversas individuais e alterações comportamentais.

Sabes-se porém, que ruídos intermitentes têm níveis de incomodidade mais elevados que os contínuos, bem como os agudos que são menos toleráveis que os que apresentam bandas espectrais mais largas.

Acima de determinados níveis de ruído, este pode tornar-se problemático, com incidências graves para aqueles que se encontram expostos, sobretudo se tivermos em conta os principais riscos que este representa :
  • Efeitos quantificáveis e mensuráveis e cuja ocorrência é facilmente notada : perda auditiva, diminuição de inteligibilidade dos sinais sonoros.

  • Efeitos de carácter subjectivo: incomodidade, irritabilidade, redução da capacidade de concentração, aumento da probabilidade da ocorrência de acidentes, redução da produtividade e rendimento, fadiga anormal, tensão psíquica.

  • Efeitos fisiológicos não auditivos : alterações de metabolismo, problemas cardiovasculares, problemas do foro gastrointestinal, alterações químicas do sangue e urina, alteração da respiração, insónias.
Em termos legais, o ruído é regulamentado pelo Decreto-lei n.º 259/2002 de 23 de Novembro (Regime Legal sobre a Poluição Sonora (RLPS), revoga o decreto-lei nº292/2000).

O Decreto-lei nº 292/2000(14 de Novembro) considera o seguinte :
  1. As zonas sensíveis não podem ficar expostas a um nível sonoro contínuo equivalente, ponderado A, LAeq, do ruído ambiente exterior, superior a 55 dB(A) no período diurno e 45 dB(A) no período nocturno;

  2. As zonas mistas não podem ficar expostas a um nível sonoro contínuo equivalente, ponderado A, LAeq, do ruído ambiente exterior, superior a 65 dB(A) no período diurno e 55 dB(A) no período nocturno.

  3. As actividades ruidosas susceptíveis de causar incomodidade, podem ser submetidas ao regime de avaliação de impacte ambiental ou a um regime de parecer prévio, como formalidades essenciais dos respectivos procedimentos de licenciamento, autorização ou aprovação, nos termos do artigo 5.º, a licença especial de ruído, nos termos do artigo 9.º, ou ainda ser sujeitas a especiais medidas cautelares.

  4. As câmaras municipais devem promover a elaboração de mapas de ruído, por forma a enquadrar a preparação dos respectivos instrumentos de ordenamento do território.
As principais alterações introduzidas pelo novo Decreto–lei nº 259/2002 (23 de Novembro) ao RLPS incidem sobretudo :
  • A atribuição da licença especial de ruído, no âmbito das actividades ruidosas temporárias é da responsabilidade da câmara municipal;
  • Maiores exigências no que se refere à Fiscalização e de processamento e aplicação de coimas os municípios ;
  • Apoio Financeiro às Câmaras concedido pelo Ministério das Cidades, do Ordenamento do Território e do Ambiente .
Em termos de exposição diária em locais de trabalho, o Decreto Regulamentar 9/92 de 28 de Abril, define como valor limite 90 dB(A), considerando que , trabalhadores expostos são todos aqueles que se encontrem sujeitos a exposições diárias durante o trabalho de nível de ruido igual ou superior a 85dB(A) ou valor de pico igual ou superior a 140 dB(A).

Valores acima de 85 dB(A), exigem medidas a tomar pela entidade patronal , a fim de avaliar a exposição diária dos seus trabalhadores e do valor máximo de pico, bem como submeter os mesmo a exames médicos e adopção de medidas preventivas.

O controlo do ruído nos locais de trabalho rege-se por legislação própria, do foro da higiene e segurança.

Existe porém outros diplomas mais específicos:
  • Decreto-lei nº76/2002 de 26 de Março - aprova o Regulamento das Emissões Sonoras para o Ambiente do Equipamento para Utilização no Exterior, transpondo para o ordenamento jurídico interno a Directiva nº2000/14/CEE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 8 de Maio.

  • Decreto-lei nº129/2002 de 11 de Maio - aprova o novo Regulamento dos Requisitos Acústicos dos Edifícios.
Os níveis globais de emissão de ruído, devem ser minimizados pela escolha de soluções construtivas e disposição funcional na fase de projecto. Esta solução além de ser economicamente mais viável, elimina a necessidade de adopção de medidas de recurso, que limitam quase sempre a funcionalidade das operações.

As medidas a considerar, podem ser de protecção colectiva ou individual, sendo as medidas de caracter colectivo as mais caras, mas também as mais consistentes e eficazes. Como exemplos de medidas de protecção colectiva temos:

Medidas Gerais :
  • Insonorização de locais onde o ruído é significativo (uso de resguardos).
  • Uso de painéis absorventes no revestimento de determinados locais.
  • Insonorização dos locais de trabalho em relação ao exterior.
  • Substituição de equipamentos ou componentes a fim de reduzir os níveis de ruído.
  • Uso de amortecedores em equipamentos mais ruidosos.
Medidas especificas:
  • Circuitos hidráulicos:

    1. Motores de transmissão eléctrica são menos ruidosos.
    2. Preferência pela regulação eléctrica da velocidade em vez de soluções mecânicas.
    3. Exigência ao fornecedores de motores do nível de ruido expectável
    4. Evitar uso de bombas do tipo volumétrico e de deslocamento, e quando seleccionadas, uso de impulsores de carretos normais, lobos ou parafusos.
    5. Circuitos com velocidades de circulação inferiores a 5 m/s
    6. Uso de amortecedores nos pontos de aplicação da potência hidráulica.


  • Circuitos pneumáticos e de ventilação:

    1. Redução de potências de ventilação e consumo de ar comprimido na fase de projecto.
    2. Montagem dos ventiladores em bases rígidas e anti-vibratórias, podendo recorrer-se se necessário à montagem de blindagens de isolamento.
    3. Uso de dispositivos silenciadores nas condutas de ventilação.


  • Transporte de materiais:

    1. Uso de meios de transporte menos ruidosos (transporte de telas são menos ruidosos que de rolos).
    2. A altura de queda dos materiais deve ser minimizada.
    3. Meio receptor dos materiais deve ter capacidade de absorção de choques(revestimentos de borracha ou plástico resistente)
Nem sempre é possível a aplicação de medidas de protecção colectiva, e noutros casos, estas podem mesmo assim exigir a adopção de medidas de protecção individual. Como exemplos de medidas de protecção individual apresentam-se as seguintes:
  • Isolamento do trabalhador em relação à fonte de ruído.
  • Uso de capacete que proteja os ouvidos e o crânio.
  • Uso de tampões para as orelhas externos.
  • Uso de rolhões auditivos(de algodão sintético) internos.
  • Redução/limitação do tempo de exposição (rotação de postos de trabalho, ou intervalos regulares).
Todas as medidas de prevenção e protecção, não excluem a vigilância médica, pela realização de exames periódicos, uma vez que a surdez é irreversível.

Uma vez que o ruído se encontra presente no nosso dia à dia, e que pode ter impactes bastante negativos no nosso bem estar e saúde, bem como a nível ambiental, é sem dúvida importante a sua avaliação e controle. Só assim se pode atingir um nível de vida onde seja possível comunicar sem ter que utilizar rolhões nos ouvidos.

Prevenção e minimização de ruido


Autora do artigo : Silvia Chambel - Engenheira do Ambiente
Data: 06/05/05
E-mail: info@ideiasambientais.com.pt



Semanalmente teremos novos artigos de ambiente, cujos conteudos, gráficos, imagens, referencias, serão sempre da responsabilidade dos autores. Você poderá participar enviando-nos ideias ou assuntos que gostaria de ver aqui.

Contacte-me através do meu e-mail info@ideiasambientais.com.pt